Medicina Veterinária de Povos Originários e Tradicionais
A Medicina Veterinária de Povos Originários e Tradicionais é uma área da Medicina Veterinária do Coletivo (MVC) voltada ao cuidado da saúde animal dentro do contexto sociocultural e ambiental de povos originários, como comunidades indígenas, quilombolas e outros grupos tradicionais. Essa abordagem respeita e valoriza os saberes ancestrais e conecta práticas veterinárias modernas a sistemas tradicionais de manejo animal, saúde humana e equilíbrio ambiental, promovendo um modelo integrado de saúde baseado no conceito de “Saúde Única”.
O principal objetivo dessa área é compreender as particularidades das interações humano, animal e ambiente, os aspectos culturais, sociais e ambientais dessas comunidades para a construção de estratégias de atuação que respeitem as práticas tradicionais, ao mesmo tempo que promovam a saúde dos indivíduos, famílias e comunidades, a conservação ambiental e melhorar os níveis de bem-estar dos animais.
O controle das zoonoses é um dos pilares fundamentais das ações na Medicina Veterinária de Povos Originários e Tradicionais, dado o impacto direto dessas doenças não apenas na saúde animal, mas também na saúde das pessoas e na sustentabilidade das comunidades. Muitas das zoonoses comuns em áreas urbanas e rurais (como leptospirose, raiva, tuberculose, toxoplasmose e leishmaniose) podem se agravar nas comunidades originárias e tradicionais devido a fatores como isolamento geográfico, falta de acesso a serviços de saúde, e condições ambientais que favorecem a disseminação de agentes infecciosos.
As medidas de controle de zoonoses incluem:
| – Educação em saúde: Sensibilizando as comunidades sobre formas de prevenção, como vacinação, manejo adequado de resíduos e cuidados básicos de higiene no manejo dos animais. |
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Vacinação e desparasitação: Campanhas regulares para imunização de cães, gatos e animais de produção (como bovinos, suínos e aves), com estratégias que levam em conta as condições locais de manejo.
Diagnóstico e manejo veterinário: Atuação direta de profissionais para monitoramento, diagnóstico precoce e tratamento de doenças zoonóticas que possam representar riscos tanto para os animais quanto para os humanos.
Práticas sustentáveis de manejo: Promovendo o manejo seguro de águas, alimentos e áreas de criação animal para evitar a transmissão de patógenos.
Nessas abordagens, a escuta ativa das práticas locais é essencial, garantindo que as intervenções contemplem as especificidades culturais e ambientais de cada região, e maximizem os benefícios tanto para os animais quanto para as pessoas.
Saberes Tradicionais na Saúde Animal
Os povos originários e comunidades tradicionais possuem práticas próprias relacionadas à saúde animal, muitas vezes baseadas em conhecimentos passados por gerações. Essas práticas variam desde o uso de plantas medicinais para o tratamento de enfermidades até métodos específicos de prevenção de doenças adaptados às condições locais. Promover o diálogo entre ciência e saberes tradicionais é essencial para a construção de soluções colaborativas e sustentáveis.
Promover o controle das zoonoses em povos originários e tradicionais não é apenas uma questão de saúde pública, mas também de justiça social, praticidade e ética. As intervenções precisam ser construídas de forma holística e participativa para garantir o bem-estar de todos os seres vivos e a preservação dos recursos naturais.
A Medicina Veterinária de Povos Originários e Tradicionais, ancorada em pilares como o controle de zoonoses, promoção do bem-estar animal e práticas sustentáveis, representa um campo essencial para a construção de um futuro mais equitativo e integrado. O diálogo entre saberes tradicionais e modernos deve ser cultivado continuamente, reconhecendo que a riqueza cultural e ambiental dessas comunidades é uma peça fundamental no enfrentamento dos desafios globais de saúde e sustentabilidade.
Referências
ACOSTA-NAZA, Lilian et al. Saberes Tradicionais e a Medicina Veterinária do Coletivo: uma abordagem integrada para a saúde animal em comunidades indígenas. Revista Saúde e Ambiente, 2023.
LIMA, J.C.; COSTA, R.O. Saúde única e povos tradicionais no contexto amazônico: reflexões e práticas. São Paulo: Ed. UNESP, 2022.
WALTNER-TOEWES, David et al. One Health: A social-ecological approach to zoonoses and sustainable management practices. Routledge, 2017.
GIACOIA, Tatiana; OLIVEIRA, Lucas Belchior Souza de; OLIVEIRA, Camila Stefanie Fonseca de; RAMOS, Pedro da Silva; SILVA, Jizelma Maria da; ABRANCHES, Monica; BERTOLINO, Fábio Cardoso. Medicina veterinária do coletivo em territórios tradicionais e originários: uma abordagem socioambiental em saúde única. Revista Clínica Veterinária. 2025. Disponível em:<https://www.revistaclinicaveterinaria.com.br/opiniao/mvcoletivo/medicina-veterinaria-do-coletivo-em-territorios-tradicionais-e-originarios/>. Acesso em: 5 jul. 2025. |