Medicina da Conservação das Aves Silvestres

 

O papel do médico veterinário na conservação das aves silvestres

 

O entendimento de saúde num contexto ecológico vem ganhando espaço e se fortalecendo nos últimos anos como uma nova abordagem complementar e muitas vezes indispensável para a proteção da biodiversidade. O termo medicina da conservação de maneira geral é definido como a ciência que visa identificar determinantes ambientais de saúde para preserva-la em todas as espécies, e para desenvolver medidas de controle e prevenção. Esta abordagem transdisciplinar de saúde desafia profissionais de diferentes áreas a descobrirem novas formas de entender e manejar perigos à biodiversidade e a encontrar soluções para estes problemas.

O aquecimento global, as constantes perturbações antrópicas ao meio ambiente e sua fragmentação, a perda de espécies, e a movimentação de animais e pessoas modificam as relações entre os seres vivos. Com isso, padrões de transmissão de doenças podem ser alterados, espécies invasoras e patógenos podem ser introduzidos, e o ambiente contaminado com produtos tóxicos. Estas condições facilitam a emergência e reemergência de enfermidades, colocando em risco a conservação de animais selvagens de vida livre ou cativeiro.

Muitos casos de patógenos que causaram prejuízos a populações de aves já foram reportados ao redor do mundo. O poxvírus aviário e a malária aviária, por exemplo, foram introduzidos no Havaí por ações antrópicas e responsabilizados por causarem impactos negativos na abundância e distribuição de espécies nativas havaianas. Mais recentemente, nos Estados Unidos, uma epidemia de Mycoplasma gallisepticum se alastrou rapidamente em house finches (Carpodacus mexicanus), uma espécie de passeriforme, devido à prática comum de civis de instalarem comedouros coletivos em suas moradias. Esta forma de fornecimento de comida aumenta a densidade e diversidade de aves nas áreas de alimentação, o que facilitou a disseminação do patógeno. Como consequência, uma grave diminuição na população de house finches foi observada no país.

Antigamente, doenças encontradas em animais selvagens por si só não eram consideradas relevantes até em certo grau prejudicarem animais de produção ou seres humanos. A ocorrência de surtos de doenças, especialmente em espécies ameaçadas, demonstrou a importância e seriedade deste assunto para a conservação, envolvendo cada vez mais médicos-veterinários na área.

Além disso, uma proporção significativa das doenças infecciosas emergentes na população humana, cuja saúde está diretamente conectada à saúde dos ecossistemas, é de origem zoonótica. As condições citadas acima que facilitam a emergência de doenças desencadeiam maior contato entre seres humanos e outras espécies, aumentando a chance de transmissão de micro-organismos. Um exemplo marcante deste caso, nos Estados Unidos, foi a introdução e emergência do vírus do oeste do Nilo em 1999, doença infecciosa que infecta aves, cavalos e seres humanos, atualmente disseminada também no Canadá, México, Caribe e América do Sul. Estimativas indicam infecção de pelo menos três milhões de pessoas nos EUA até o ano de 2010, com mais de 40000 casos clínicos e pelo menos 1700 óbitos. Mais de cinco mil corvos foram encontrados mortos em apenas três meses durante o início da epidemia da doença, e passaram a servir como sentinelas para o desenvolvimento de um sistema de vigilância visando detecção de infecções recentes e diminuição de riscos para a população humana.

Nos últimos 70 anos, cerca de 350 doenças emergentes e reemergentes foram registradas pela Organização Mundial da Saúde. Algumas delas, como a febre amarela, malária, dengue, influenza aviária, foram resultado de alterações ambientais e outros fatores. Dessa maneira, a proteção da biodiversidade é essencial para preservar a saúde como um todo. Para protegê-la, inúmeros projetos de conservação/programas de reintrodução foram criados focando nas espécies ameaçadas e seu hábitat, e demandam multidisciplinaridade e diferentes habilidades de diversos profissionais.

 A área de atuação do médico-veterinário pode ser abrangente nestes programas, principalmente nas seguintes áreas: avaliação e monitoramento da saúde de animais de cativeiro e vida livre visando examinar a possibilidade de emergência/reemergência de patógenos e efeitos de contaminantes ambientais; avaliação dos efeitos de doenças em espécies ameaçadas de extinção; criação de protocolos de manejo de saúde, e determinação de tratamentos, quarentenas e profilaxia. Dependendo da especialização do profissional, há possibilidade de realização de necropsias para determinar causa mortis e guiar manejo; criação de técnicas diagnósticas mais sensíveis, específicas e menos invasivas; atuação na área cirúrgica, de enriquecimento ambiental, comportamento, monitoramento reprodutivo em vida livre e cativeiro, genética e inseminação artificial.

Eventos recentes e preocupantes de ameaças de patógenos a populações de aves ameaçadas de extinção demonstraram a relevância da ação de médicos-veterinários na conservação. Plantéis cativos da arararinha-azul (Cyanospitta spixii), espécie extinta da natureza, têm sido desafiados pela doença de dilatação do proventrículo (bornavírus), doença infecciosa fatal para aves. A participação de médicos veterinários na conservação desta espécie foi decisiva para evitar a disseminação do patógeno, controlar a doença e estabelecer um bom manejo para manter o restante da população saudável. Outro exemplo relevante de emergência de doenças em aves envolve a doença do bico e das penas dos psitacídeos (circovírus), significativa por sua característica altamente contagiosa, imunossupressora e letal. Esta enfermidade tem sido detectada na população de apenas 500 indivíduos de “Echo parakeets” (Psittacula eques) de vida livre, existentes nas ilhas Maurício, África, e em perigo de extinção, e em periquitos-de-ventre-laranja (Neophema chrysogaster) de vida livre e cativeiro da Austrália, cuja população criticamente ameaçada de extinção na natureza é de apenas 20 a 25 indivíduos. A pesquisa na área de medicina veterinária, nestes casos, auxiliou no entendimento da dinâmica das populações, dos impactos e dos fatores de transmissão do circovírus nas espécies ameaçadas.

A medicina da conservação tem se mostrado cada vez mais essencial para a proteção não só da biodiversidade como também da saúde pública. Os resultados gerados a partir das investigações demandadas podem ajudar na determinação ou alteração de medidas públicas em prol da conservação de espécies e do meio ambiente. Pouco se entende em relação às doenças infecciosas e parasitárias da vida selvagem, e muito ainda precisa ser estudado e descoberto frente às complexas e intensas ameaças à natureza, o que irá elevar cada vez mais esta abordagem mais abrangente da saúde.  

 

Frederico Fontanelli Vaz – Médico Veterinário, com experiência na área de clínica, conservação, patologia clínica e patologia de aves selvagens.